Sei que o Natal é em minha casa quando alguém me diz em tom
imperativo, eu diria até agressivo, que TENS QUE ARRUMAR O TEU QUARTO. E é no
meu quarto que começa o Natal. Com a minha avó a invadi-lo e a perguntar-me há
quanto tempo não vou à missa. Depois, fala-me do Natal. Mas do Natal a sério,
quando as prendas não vinham em envelopes e as pessoas não vinha digerir a
comida para "as internets", que para digeri-la tínhamos as suecas, os
dominós e um bom bagaço.
Do quarto, passa para a sala, onde o tio mais barrigudo
rouba-te o sofá porque "este é maior para dormir". E tu, porque é
Natal, trocas de sofá. Vais buscar uma manta para ti (que o natal aquece
corações mas os corpos continuam com frio), mas ele pede-a. E tu dás. O Natal é
isto. É ver o primo mais a novo a sentar-se estrategicamente ao lado da árvore
de natal para ir roubando enfeites de chocolate, como quem não quer a coisa. É
mandar mensagens doces e alguém dizer-te que overdose de doçura só ao teu lado.
E, mais tarde, o mesmo, dizer-te que
tem um presente debaixo do seu pinheiro e espera que sejas tu.
Natal é reparar que aquela
pessoa, não sendo do agregado familiar, já tem lugar marcado na mesa. É receber
declarações de amor e muitos gosto de ti, apressadamente justificados com um
"só disse isto porque é natal", como se ele não gostasse de ti todos
os dias que o ano tem. É enviar postais. Sim, enviar
postais é o melhor do natal. Ou então recebê-los. Nunca me decido. É ver tudo a
vestir e calçar as prendas e desfilar pela casa. E, claro, Natal não seria Natal,
sem meias (há sempre alguém que sofre) e sem piropos, piropos gulosos: se todos
os doces fossem como tu, rendia-me à obesidade - que, não conseguindo conter o
riso, te fazem rir mais do que devias à mesa.
Silêncio. Vamos rezar. Oh não,
Rita, já começaste a comer!
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